Carta a Saudade

Carta a Saudade

Márcia é portuguesa e está agora longe de Lisboa. Porém, onde quer que esteja carrega consigo “essa alegria de cantar a tristeza”, “esse desejo de ser um todo e sentir tudo com emoção”, “essa esperança encoberta de Fado”. Nesta carta à Saudade, ela aborda as raízes desta música tão lusa, mas que fala da humanidade inteira.

Querida saudade… escrevo-te para agradecer.

Graças a ti sei quem sou!

Sou portuguesa com raízes profundas num país maravilhosamente talhado pelo mar. A minha saudade tem sabor de mar, como a lágrima salgada que desce sobre a face e nos seca a garganta. É daí que nasce o nosso canto, puxando o sentimento lá do fundo, numa voz marcada e sentida, com que nos entregamos por inteiro.

Tenho saudades de Lisboa e do seu fado. Para mim será sempre isso que representa. Numa ligação profunda ao mar, Lisboa é uma cidade-porto, cidade de chegada e de partida, de alegria e melancolia, cidade multicor e multidor, anarquia e polifonia, ponto de encontro cultural e desencontro social, doce melodia e taquicardia, Lisboa é também a cidade dos artistas e dos amantes.

E o fado, uma das maiores expressões do seu sentir. Exatamente porque solta toda a latitude de sentimentos que a cidade faz sentir, nas vozes de um povo habituado à inconstância, à fatalidade da tempestade e à eterna saudade, embaladas pelos acordes de uma guitarra que também chora.

Fado, do latim fatum, que significa “destino”. É aí que reside a sua beleza. Devemos aceitar o nosso destino, seja ele qual for.

Embora a sua origem histórica seja incerta, sabe-se que o fado surgiu na segunda metade do século XIX, ligado às viagens marítimas portuguesas e a um povo amargurado pelas dificuldades em que vivia.

 “O Fado nasceu um dia,

quando o vento mal bulia

e o céu o mar prolongava,

na amurada dum veleiro,

no peito dum marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava…”  (1)

Cantar a tristeza… Das vielas da cidade aos salões aristocráticos, dos marginais aos nobres fidalgos, depressa este canto se tornou representativo de uma angustia colectiva particularmente lusa, que através do fado se salva e encontra a redenção.

Ainda hoje este é o grande segredo e a essência do nosso espírito. Procurar a alegria na tristeza, a esperança encoberta numa única palavra intraduzível (2): saudade.

Querida saudade…Escrevo-te para agradecer.

Graças a ti sei onde vou!

Destino ou caminho, este é o meu, tenho a certeza. E nesta grande viagem trago comigo os melhores e os piores momentos, aprendendo a receber o que têm para me dar. Em cada obstáculo que encontro, iço-me na coragem para galgá-los e continuar a apreciar a vista maravilhosa que a vida nos oferece. Contigo aprendi que a tristeza é também uma parte importante da vida. E agradeço-te por me fazeres sentir tudo sem pudor ou arrependimento, mas com graças e aprendizagem.

“Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados…”(3)

Por isso de vez em quando fecho os olhos e regresso ao meu país, a essa cidade de colinas, com cheiro a “flores e de mar”, vestida de roupas estendidas nas janelas e paredes despidas de tinta, mas que reencontram na arte urbana nova expressão, de tempos que mudam mas o povo não. Poetas e pintores, músicos e escritores, jovens e senhores, Lisboa continuará a ser sempre inspiração e o seu modo “em construção”, assim como nós, que queremos ser um todo e sentir tudo com emoção. E oiço o fado, enquanto bebo um copo de vinho tinto, de novo em Alfama ou no Bairro Alto – onde quer que me levem a lembrança e o coração – por vezes sobrevoando tudo com o olhar, como a gaivota suspensa sobre o Rio Tejo, que brinca com o vento que vem do Atlântico.

“Se uma gaivota viesse

trazer-me o céu de Lisboa

no desenho que fizesse,

nesse céu onde o olhar

é uma asa que não voa,

esmorece e cai no mar

Que perfeito coração,

no meu peito bateria…”(4)

Esta história foi originalmente escrita em português pela impressionante pena de Márcia, nosso escritor Português nativo. E então tudo lhe foi melhor explicado de uma forma mágica pela nossa encantadora Coordenadora de Projeto, Katerina. Saiba mais sobre nossos serviços de redação aqui.


(1) “Fado Português”, poema de José Régio, cantado pela fadista Amália Rodrigues.

(2) A palavra “saudade” só existe na língua portuguesa e seus derivados, como o caso do galego e do crioulo Português, ou existe também no Esperanto. Por isso se diz intraduzível. Saudade é um anseio, uma dor por uma pessoa ou lugar ou experiência que trouxe um grande prazer. Pode-se sentir saudade por algo que nunca aconteceu, e provavelmente nunca acontecerá. Como Aubrey Bell escreve no seu Livro “Em Portugal”, saudade é “um desejo vago e constante de algo…além do presente”.

(3) “Passagem das Horas”, poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

(4) “A Gaivota”, poema de Alexandre O’Neill, cantado pela fadista Amália Rodrigues.